Iniciativa na Esteira
Todo mundo conhece a melhor fórmula para emagrecer: cuidar da alimentação e queimar mais energia. Mas isso não significa "fechar a boca e freqüentar academia". Mesmo porque, passar fome durante um tempo e matricular-se em um "ninho de atletas" é fácil. Difícil é combater a preguiça e pensar no longo prazo.
Um dos melhores investimentos que fiz na vida foi numa esteira – embora só tenha percebido isso muito tempo depois. Logo que chegou, deixei-a plantada no meio da sala íntima, competindo com televisão, livros, vários filmes, revistas, um minibar e até com uma pipoqueira elétrica. No primeiro ano, a coitadinha foi desprezada a ponto até de virar cabide.
Um dia, estava eu assistindo televisão de camisola quando meu filho lançou uma provocação: "Mãe, porque você não aproveita e sobe agora mesmo na esteira?" Imediatamente, eu respondi: "Como assim? Já estou de camisola!".
"E qual o problema" – ele disse – "Você está na sua casa, só estamos nós aqui! Bote o tênis e suba assim mesmo!" Topei o desafio e caminhei por 20 minutos, assistindo ao "Show do Milhão" do Silvio Santos – aquele programa de perguntas e respostas que estimulava o telespectador a pensar junto com o candidato. Juntei uma coisa que gostava com outra que não, e isso me ajudou.
Adorei a experiência. Sem grandes pretensões, eu via aquilo como uma espécie de ritual para estimular o corpo e a memória. Quando terminei, já deixei um tênis pronto para o dia seguinte. Arrisco até a dizer que o Silvio Santos foi meu primeiro "personal".
Claro que com o tempo surgiu uma nova complicação. Meus horários começaram a não bater com os horários do Silvio. Fazia menos de um mês que eu andava na esteira, e seria fácil e tentador abandonar o treino. Tinha a desculpa (e a pipoqueira) na mão.
Foi então que eu ouvi uma voz interna – provavelmente um "eco" da voz do meu filho – dizendo: "Ora, Lucilia, videocassete existe há séculos! Primeiro você joga a culpa na camisola. Agora vai culpar o Silvio Santos?" Não deu outra: passei a gravá-lo. E continuei por muito tempo caminhando com ele na esteira.
Muitas águas rolaram de lá para cá, e várias pedras surgiram no meio do caminho. A começar pelo programa, que não existe mais (Saudades, Silvio!). Mas até hoje faço minha esteira todos os dias por cerca de uma hora. Como me mantive? Encontrando pequenas soluções diárias para lidar com os imprevistos e ia para a esteira sem questionar, lembrando sempre que quando terminava minha disposição era outra.
Para terminar, deixo aqui uma dica: antes de eleger uma nova desculpa para fugir do treino, veja bem se você foi criativo o suficiente para esgotar todas as possibilidades. Afinal, é muito mais lógico buscar a solução para um problema do que passar a vida de pijama tentando se proteger dele.