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A vaidade está acima de tudo?

Nos anos 60, depressão se chamava fossa. Nos anos 90, erradicava-se a depressão por decreto: bastava tomar os remédios tarja preta. Agora, no início do segundo milênio, divãs de analistas, ombros amigos e medicamentos acabaram sendo substituídos pelas clínicas de cirurgia plástica. Bateu tristeza? Dá-lhe silicone nos seios. Terminou o namoro? Dá-lhe lipoaspiração rápida. As rugas estão incomodando? Vamos para uma sessão dos esticadores de pele.

 

Pareço sarcástica? Um pouco, embora não veja nada de errado em nenhum dos procedimentos, mesmo porque a cirurgia plástica, lado a lado com a correção dos erros da natureza, tem por missão tornar as pessoas mais felizes. E se corrigir o que nem merece ser corrigido deixa você mais feliz, quem sou eu para começar um discurso enfadonho sobre os excessos que vêm sendo realizados? Mas é praticamente isto que vou fazer hoje!

 

Na verdade, tudo que escrevi acima foi sob o impacto de um seriado que acaba de estrear na tevê. Calma lá! Não sou crítica e nem vou me dar ao luxo de comentá-lo tal como o fariam pessoas mais experientes. Mas não resisto à umas pinceladas, pois, afinal, o seriado, que tem como personagens principais dois cirurgiões plásticos, dieta e rola exatamente sobre os excessos. Aqueles que eu, você e todos sabem que, de fato, existem.

 

Aliás, quem viu provavelmente vai pensar duas vezes antes de se candidatar a um conserto fast-food da anatomia: as cenas televisionadas eram hiper realistas... assim como os dramas éticos de quem empunhava o bisturi e os dramas pessoais de quem estava sedado.

 

Adorei como entretenimento e até pensei em gravar para mostrar a uma amiga. A razão é uma só: ela pertence a uma tribo que transformou a lipoaspiração em programa anual. Você também deve conhecer outras sócias (e até sócios) deste clube. O perfil é o mesmo: são pessoas cuja vida é feita de excessos... de comida, de sedentarismo e, no final, de cirurgias.

 

O raciocínio é simplista: "Posso pagar. Para que vou me privar de comer o que tenho vontade? Basta uma lipo rápida e vou entrar no vestido do Reveillon...". Juro que ouvi isso e fiquei pensando com os meus botões que domar nossos piores instintos é de fato complicado.

 

Posso perceber que esta era a criatura em que eu mesma poderia ter me transformado se não tivesse encarado minhas fraquezas e, paradoxalmente, me sentisse desafiada exatamente por elas. A conclusão é que há caminhos mais rápidos para resolver nossos problemas, mas nem por isso eles são os melhores.

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