Amor x gordura
Minha amiga Marta emagreceu. Muito. O marido continua obesesésimo! Sentar à mesa para uma refeição em comum virou um sufoco: enquanto Marta faz cara de feliz devorando vagarosamente um arroz sem gordura, apenas cozido com muitos temperos e carnes grelhadas no mesmo estilo, ele saboreia lingüiças, enquanto repete o arroz, o feijão, o arroz, o feijão... Aiii... Marta diz que vai acabar com uma gastrite só de olhar para o festim gorduroso ou simplesmente vai assassiná-lo à mesa! As discussões sobre o que é saudável, o que ele deveria comer e o que está comendo tomaram conta de quase todas as refeições. Na verdade, ela consegue se conter durante uma ou duas, mas no segundo dia não resiste e cai matando enunciando todas as doenças que o aguardam caso continue com o cardápio. Como se não bastasse, seu tesão pelo marido vem decrescendo na mesma velocidade que seu peso na balança. A razão é uma só, e ela mesma confessa, mortificada e envergonhada: enquanto ela se vê no espelho cada vez melhor, mais gatinha, seu olhar para o parceiro começa a vir carregado de criticas no sentido estético.
Invertendo as posições do casal, quase posso ver minha própria história há muitos anos. Nem por isso devo deixar de dar meu palpite, ou melhor, de fazer minha crítica à situação. O amor resiste à obesidade? Sem enquete nacional, com um número considerável de casais nessas mesmas condições, seria loucura dizer que sim. Ou, que não. Aliás, posso até lançar, um pedido às leitoras para que contem suas experiências a respeito. Talvez os resultados ou as lições que costumam vir embutidas nas confissões sirvam como bússola para guiar as mais desesperadas.
Zona de conflito
De qualquer forma, meu comentário, ou o que penso a respeito, como diz, vindo da própria experiência, é simplista: como o obeso acaba sendo seu próprio algoz, por frustração, e até mesmo por haver, por vezes, uma violência desesperada no ato de comer tão exageradamente, nem sempre é a obesidade que destrói a relação, mas o próprio comportamento em si, que vira algo agressivo, visto e sentido apenas por quem convive diariamente com o processo. O obeso até pode ser aquela figura simpática e bonachona, digna dos melhores estereótipos - o que também pode destruir a tensão sexual porque as mulheres não querem ter relação com o amiguinho, mas sim com o homem. Mas, tanto o simpático como o agressivo não são regra ou exceção e nem se excluem mutuamente - podem até conviver na mesma pele, gerando ainda mais conflito. Além do mais, quando um dos parceiros começa a emagrecer, a se cuidar, as mudanças implícitas no relacionamento já começam a ser sentidas: o que estava em desequilíbrio vai se mostrar cada vez mais desequilibrado. É aguardar e ver.
O que fazer, você me pergunta? Adoraria dar respostas prudentes, daquelas que servem como manual preciso para você dar uma guinada na sua vida, mas nem tudo funciona preto-no-branco e cada caso, como diz a cultura popular, é um caso. O que pode funcionar é o estoque de amor generoso e inesgotável que existe em nosso coração para você se manter à tona quando as ondas estão tempestuosas ou boiar prazerosamente quando os ventos estão a favor. Olhar além do peso, além da raiva, além da libido - fatores que podem fazer você tomar decisões radicais sem antes tentar a última cartada, ou a penúltima, ou a antepenúltima. Se nada disso funcionar, a vida em comum pode mesmo se dissolver ao sabor das oscilações da balança - e falo aqui sem nenhuma figura de linguagem. Mas, em muitos casos, a parceria amorosa já estava predestinada a acabar. Com ou sem peso extra.