Como lidar com as cobranças
Quem está em luta com a balança sempre acaba tendo problemas sociais e pessoais, como o excesso de intromissão dos outros, por exemplo. Sabe aquelas pessoas que cismam em controlar sua dieta, bem no dia em que você resolve se dar ao direito de comer algo mais calórico? "Vai pedir essa sobremesa?”, exclamam sem cerimônia, deixando todos ao redor constrangidos. Dizem que é para o nosso bem, mas não têm idéia de como se tornam irritantes ao oferecer esse tipo de ‘ajuda’. Pior: de quanto colaboram para aumentar a sensação de culpa – o que, no final das contas, só potencializa ainda mais a vontade de comer.
Desde pequena, me acostumei a ter alguém olhando torto para o meu prato na hora do almoço, com aquela cara de desaprovação – que só quando a gente é criança consegue tirar de letra. Confesso que achava até divertido deixar a mulherada da família boquiaberta com os pedaços de bolo gigantes que comia. Depois de adulta, decidi acabar de vez com o martírio: só fazia regime em segredo para não correr o risco de ser policiada. Quando alguém perguntava por que estava enchendo o prato com agrião, respondia, sem hesitar, que era por causa da diverticulite.
Quem fuma costuma enfrentar o mesmo inconveniente. Como tive esse vício, lembro bem dos comentários dos antitabagistas de plantão. Porém eu não aceitava a provocação calada. "Desculpe, mas eu não tenho coragem de me matar de uma vez. Prefiro ir aos poucos.” Minha tia fazia o sinal da cruz, a vizinha fingia que não tinha ouvido e, pronto, eu podia continuar dando minhas baforadas em paz.
Palpite infeliz
Parar de fumar, assim como parar de beber ou mudar seus hábitos alimentares, é algo pessoal e intransferível – da decisão à execução. Seus familiares podem sofrer, chorar ou urrar porque você está gorda, mas não é a opinião dos outros que vai lhe fazer optar pelo bife grelhado em vez de provar a torta de massa podre com lingüiça, uma receita que você adora. É sempre assim: há o time dos que defendem a dieta radical e o adversário, das parentes bonachonas, que querem fazer você crescer e ficar forte, mesmo quando ultrapassou os 100 kg.
Depois que consegue vencer e entende que o amor-próprio é a melhor benção que alguém pode desejar na vida, o rancor pelas torcidas contra e a favor do seu cardápio se dissipa. Quando estamos satisfeitos com a nossa auto-imagem, toda mágoa contra os intrometidos se mantém guardada e isolada no compartimento do passado. Somos até capazes de sentir saudade de certos momentos difíceis – mesmo porque eles nos dão a dimensão da vitória. Então, para economizar irritação, vale lembrar-se sempre disto: você vai chegar lá, mais cedo do que você imagina. E não vai ter tia gorducha, muito menos vizinha magérrima, que derrube sua determinação e auto-estima.