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Fantasmas internos

São Paulo. Sexta-feira de chuva. Aeroporto lotado. Sabia que estava atrasada. Faltavam... o quê? Cinco minutos para o vôo! Corri que nem louca para o embarque. Quando cruzei o portão esbaforida, a notícia: "Senhores passageiros, o vôo 434 com destino ao Rio de Janeiro irá atrasar devido ao mau tempo”. Puxei o bilhete só para confirmar o que temia: era o meu! Peguei um livro, me acomodei na cadeira e lá fiquei, com um olho na página e outro no movimento. Uma menina passou ao meu lado. Ela caminhava tão de mal com a vida que quase carregou meu pé junto. E nem pediu desculpas! Tudo bem. Ofereci as frutas secas que estava comendo. Não aceitou, também não agradeceu. Voltei para o livro. Ela também pegou um livro. Na verdade, um diário. E começou a escrever, escrever...

Querido diário
Essas cadeiras de sala de embarque são tão grudadas que não pude deixar de ler o que ela escrevia. Peço licença para transcrever um pedaço. "Devo ter mesmo cara de gorda, afinal de contas acabam de me oferecer comida. Poxa, faço tanto regime, me esforço para ser magra e sou tratada como uma compulsiva, que come tudo o que vê pela frente...” Fiquei tão possessa que quase respondi, mas lembrei que não podia, afinal, ela estava conversando com o diário e não comigo. Só quis ser gentil! E o mais estranho de tudo isso é que a menina não era gorda, nem fofinha, nem nada. Era magra de tudo. E bonita! Aí é que não resisti mesmo e continuei lendo o diário de rabo de olho. Distraída, deixei cair o livro no chão. Quando abaixei para pegá-lo, percebi que ela escondia os dedos dos pés. "...não falei? Agora essa mulher fica prestando atenção nos meus dedos. Eles são gordos mesmo, e daí? Não me incomodo nem um pouco com isso. No mínimo ela também deve estar achando as minhas pernas engraçadas: canelas finas e coxas grossas! Malho tanto, para quê? Para ser ridicularizada na rua?”

Procura-se auto-estima
Não acreditava no que estava lendo, meu Deus, alguém arrume um analista correndo para essa menina! Não vi nada de anormal nos seus pés, muito menos na sua perna. E mesmo que tivesse alguma coisa fora do lugar, oras, não é da minha conta nem da de ninguém! Chamaram meu vôo. Ufa! Não agüentava mais ser mal interpretada e não poder me defender. Falei tchau. Preciso dizer se ela respondeu? Entrei no avião e tentei um retorno ao livro. Onde estava mesmo? Ah, naquele trecho que diz que os fantasmas estão dentro de nós e não nos outros. A aeromoça ofereceu balas. Dei um largo sorriso em agradecimento e pensei... ou melhor, não pensei absolutamente nada. Juro!

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