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O amor não usa lente de aumento

Até a semana passada eu nunca havia pensado numa lanterna como um apetrecho sexual. Calma, calma! Antes que a sua imaginação saia por aí destrambelhada, vou explicar exatamente a utilidade deste objeto, que descobri numa conversa muito particular com alguém cujo nome não revelo por motivos óbvios.

 

O marido desta pessoa vive dando tropeções pelos móveis do quarto, sempre deixado no mais escuro breu, pois é na escuridão que ela esconde todas as suas "imperfeições”: celulites, estrias, curvas e saliências. A bela deita-se na cama – na posição mais vertical que lhe é possível, a fim de murchar a barriga – apaga as luzes e é assim, oculta pelos mistérios da escuridão, que ela espera pelo amante.

 

Só que da última vez que o Romeu deu uma topada feia no dedão, ele estrilou: "assim não dá! Será que eu vou ter de comprar uma lanterna?” Acabaram caindo na risada e o que veio a seguir não tenho autorização para contar...

 

Ao menos, a história da lanterna teve um final feliz. Por outro lado, há quem viva se escondendo por vergonha do corpo que têm. E isso não acontece só aqui. Nos Estados Unidos, duas revistas muito populares – uma masculina e outra feminina – promoveram uma ampla pesquisa com seus leitores sobre auto-imagem e relacionamento. As respostas foram surpreendentes. Metade das mulheres ouvidas e 24% dos homens revelaram que evitam a relação sexual por se sentirem desconfortáveis com o corpo.

 

Eu me lembro desta pesquisa sempre que ouço a frase "meu marido não me toca porque estou gorda”. Essa queixa é tão comum nos consultórios de psicologia quanto nas conversas ao pé do ouvido entre amigas. E ainda revela muito mais a auto-imagem de quem a diz do que o real comportamento do parceiro. Será que é o marido que não quer sexo ou é a mulher que o rejeita? A mulher que não se sente atraente tende a se esquivar, tornar-se mais fria e distante. Isso sim, é um balde de água fria nas intenções eróticas de qualquer um.

 

Não vou tentar convencer ninguém que aparência não é importante na hora do relacionamento sexual. A escritora chilena Isabel Allende, no livro "Afrodite – Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos”, diz que entre os maiores "antiafrodisíacos” que se conhece estão "um homem nu com meias” e "uma mulher com bobs no cabelo”.

 

Repare, porém, que ela fala de cuidados possíveis, não de metas inatingíveis. Ela fala do carinho com que você se mostra ao seu amante: afinal, nós oferecemos o melhor de nós a quem amamos! E é esse carinho que esquenta o relacionamento. Diante do toque macio da pele, de uma lingerie insinuante, de um cabelo sedoso e um perfume envolvente, os homens não ficam olhando os pneuzinhos, acredite!

 

Quem olha para as imperfeições com lente de aumento é você, não ele. Se os homens mesmos vivem dizendo isso, por que é que a gente ainda insiste em lembrá-los do assunto?

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