O poder do bom humor
É impressionante como há pessoas que conseguem mudar a nossa vida para melhor ou para pior sem que a gente perceba. É até perigoso, se pararmos para analisar. A influência dos outros pode ser muito benéfica, o que não significa dizer que a empolgação que alguém nos transmitiu passe a ser nossa de verdade, de forma duradoura.
Assim como, felizmente, podemos ficar irritados na presença de um vendedor mal-humorado e, logo depois, lembrar de uma piada e soltar uma gargalhada no meio do shopping. Vulnerabilidade em excesso pode ser prejudicial à saúde? É verdade. Mas, então, qual seria o limite? Sim, porque o mundo seria uma chatice se cada um de nós vivesse numa redoma de vidro, controlando a antena o tempo todo para não assimilar uma energia negativa aqui ou ali.
Afinal, é quando estamos disponíveis para os outros que construímos relacionamentos verdadeiros, conseguimos emprego e educamos nossos filhos, só para citar alguns exemplos. Se ninguém absorvesse a emoção de ninguém, não existiria o cinema, o teatro ou qualquer outra forma de expressão.
Às vezes, temos a opção de escolher. Se vamos a uma reunião em que todo mundo está de cara feia, é só cumprimentar a anfitriã, inventar uma desculpa e cair fora. Se o marido está resmungando sem parar, pegamos o lençol e vamos dormir na sala. Bom humor, na minha opinião, é algo sagrado. Se você tem sorte de acordar com ele, tem que agarrar com unhas e dentes.
Num piscar de olhos, você pode ser atingido por uma frase maliciosa e então o processo é irreversível. Você se pega ruminando palavrões ou engolindo sapos, para depois ir para a cama com uma indigestão horrorosa, achando que foi a tal da azeitona da empadinha que serviram no jantar.
Você também já deve ter acordado com o pé esquerdo e acabou sendo surpreendido até o anoitecer. Aqueles dias em que você vai tomar café da manhã e queima o dedo na leiteira, além de deixar a torrada cair no chão com a geléia virada para baixo. Depois, leva um choque ao entrar no carro – esses problemas de eletrostática que às vezes nos perseguem.
Ainda precisa enfrentar uma sucessão de eventos desagradáveis, como descobrir que seu celular foi clonado, sua melhor roupa rasgou, seu colega te deixou esperando mais de 40 minutos e a pessoa que você mais queria encontrar não foi à festa. Ir deitar mais cedo, nessas ocasiões, pode até ser um alívio, mas há sempre o risco de haver pernilongos no quarto. Melhor voltar para casa só quando o sono apertar.
De repente, eis que um anjo aparece no seu caminho. Um pessoa iluminada, radiante e charmosa, que vira você do avesso e faz valer a pena todo o mau agouro do dia. Se você não tivesse dado uma outra chance àquela festa sem graça, seu dia teria acabado com um suspiro frustrado sobre o travesseiro.
Assim é a vida: um só momento de felicidade é capaz de compensar horas seguidas de sofrimento. E, juntando as partes bonitas do quebra-cabeça, chegamos sempre à conclusão de que sempre vale a pena correr o risco de absorver os humores alheios.